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ENSAIOS SOBRE A MENTIRA OU DESCONSTRUINDO OS CONTEÚDOS OU REINTERPRETANDO POLITICAMENTE ESSA HISTÓRIA QUE SEMPRE SERVIU PRA JUSTIFICAR A DOMINAÇÃO, MAS NÃO PARA EXPLICÁ-LA. de Eduardo Antonio Bonzatto

Mas os suicidas têm uma linguagem especial. Como os carpinteiros, querem saber quais ferramentas. Nunca perguntam por que construir. Anne Sexton, “Wanting to die”

Agora podemos retomar as questões mais tópicas da dominação, reinterpretando cada tema consagrado pela historiografia convencional, mas não até o esgotamento das possibilidades da própria interpretação para este tempo. Poderíamos chamar esta etapa de hermenêutica dos conteúdos.

Antes, contudo, devo reforçar a perspectiva de onde falo. Sou anacrônico, não acredito em evolução nem no progresso que impliquem na evolução e progressão do tempo ou dos eventos no tempo ou, e principalmente, do homem. Creio na mudança contínua e irrepresável. Por outro lado, creio completamente no sucesso da sociedade de controle e na sua eficácia; por fim, gostaria de deslocar a perspectiva da observação histórica para o homem comum, para o seu ângulo e ponto de vista, e não exatamente para o homem de exceção, aquele que deixou vestígios na história como preconiza a micro história, mas o homem ordinário, que moveu em grande medida a roda da história, que deslocou de modo imperativo o mundo do passado de seus caminhos difusos e o colocou num trilho, num novo caminho bipolar, esse mesmo homem que sou eu nesse meu tempo, que somos todos nós que fazemos a roda da história mover-se dinamicamente numa sociedade desigual, que levantamos todos os dias na esperança de que a roda rode uma vez mais seu vórtice de iniquidade.

Invenção de Michelet, o que foi a Idade Média?

Entender qualquer período anterior à invenção da prensa de Gutenberg é um problemão. A palavra escrita foi pletora da fixação de uma memória insidiosa.

Os impérios Han, Romano, Bizantino, Coreano, Mughal, Inca, Asteca, Maia, Egípcio, ou mesmo a dinastia Tokugawa não podem ser resgatados justamente porque o mesmo mecanismo que impôs ao passado europeu uma coerência, com o avanço do modelo eurocêntrico para as bordas do mundo europeu carregou consigo os mesmos procedimentos. Mesmo em relação àqueles que já possuíam a cultura escrita, radicalmente diferente, inclusive nos seus propósitos, desenvolvido na Europa.

Recentemente, descobriu-se um padrão nos enterramentos do vale dos reis no Egito: apenas dois tipos de túmulos foram descobertos; o dos reis e os outros: nenhum túmulo intermediário, nenhuma hierarquia possível entre um e outro. E o que isso nos leva a interpretar? Que o faraó era um deus e todo o grupo trabalhava para a sua gloria, que consistia na nutrição espiritual do grupo e na humidificação do vale do Nilo, estabelecendo a sobrevivência física de todos.

Igualmente, com a guerra do Iraque, os Estados Unidos resolveram copiar o modo de operação das centúrias romanas como ideal para enfrentar os problemas que os comandos militares vêm enfrentando no deserto. Atiradores de elite tem eliminado sistemática e preferencialmente os líderes de pelotão, o que gera enorme confusão em grupos que somente aprenderam a obedecer.

Entre as centúrias romanas, a autonomia era o padrão. Sem chefes, cada grupo dava conta inclusive de sua manutenção, o que configurava a própria estrutura do exército romano: entre os soldados e o comando, que era o estrategista em batalha, nenhuma hierarquia era contemplada. Vejamos algo da denominada Idade Média. Tomemos como exemplo a instituição da Igreja.

Marx afirma que a instituição é moderna por excelência, então, como explicar a instituição da Igreja no século IV da era cristã? Simplesmente não é possível explicar.

Todavia, existe um caminho possível de compreensão. As heresias e, consequentemente, a Inquisição. O que uma e outra auxiliam nessa compreensão?

As heresias apontam para o caráter multifacetado da religião durante os séculos IV e XIV. Não existia uma religião católica, mas múltiplas formas de religiosidades e de sociabilidades até o advento da Inquisição, ferramenta de poder que atesta a emergente “necessidade” de institucionalização, e portanto de unificação, de padronização, da Igreja do século XIV.

Existiam senhores e servos no período. Dentre tantas outras formas de sociabilidade, sim. Porém, mais do que hierarquia, tal relação implicava muito mais função que posição social. E funções complementares, uma não coexistindo sem a outra.

Mas não existia somente isso. Famílias extensas eram a tônica do período em boa parte do solo europeu. Grupos em que as relações de parentesco eram extremamente diversificadas daquilo que conhecemos como pai e mãe. Somente com o advento da herança e do morgado é que o modelo centra-se na figura do homem e do pai, já em época tardia do século XII.

Outra questão importante é a temporalidade dos fenômenos, tão fluídica, tão diversa que fica impossível precisar um ponto de início. O que podemos perceber é sua hegemonia, seguindo uma leitura a contra-pêlo de alguns documentos. O “cortesão” é um desses manuais que auxiliam a olhar para trás no tempo e nos permitem perguntar sobre como eram então as relações sociais para que uma peça de normatização dessa natureza fosse necessária. Assim como o discurso da servidão voluntária de que trataremos a seguir.

Leio na Internet:

Fim do mundo será em 2060, previu Newton O físico britânico Isaac Newton, descobridor da lei da gravidade, previu que o fim mundo chegará em 2060, segundo uma exposição inaugurada nesta segunda-feira (18) na Universidade Hebraica de Jerusalém. A exposição revela novos documentos sobre o trabalho e as investigações do cientista, que viveu entre 1642 e 1727. Além da física e da alquimia, sabe-se há tempos que Newton estudou profecias apocalípticas escritas na Antigüidade. ”Newton se esforçou para decifrar o que ele considerava conhecimentos secretos, conhecimentos codificados nas escrituras sagradas de culturas antigas e de outros arquivos históricos”, diz a filósofa Yamima Ben Menahem, curadora da exposição, em comunicado. Entre os manuscritos do cientista, há um no qual ele tenta calcular o fim do mundo segundo o livro do profeta Daniel, no Antigo Testamento, e chega à conclusão de que ele acontecerá no ano 2060. Cuidadoso, o físico escreveu que não era possível ter 100% de certeza a esse respeito. “Pode acontecer mais tarde, mas não vejo motivo para que aconteça mais cedo” com base no livro de Daniel, afirma Newton. Os documentos da exposição “Os segredos de Newton” pertencem à Biblioteca Nacional de Israel, situada no campus de ciências da Universidade Hebraica. Chegaram lá em 1969, doados pelo filantropo judeu Abraham Shalom Yehuda, que os tinha comprado em 1936 em um leilão em Londres. ”Newton abordou esses estudos com a mesma meticulosidade demonstrada em seu trabalho como cientista”, diz Menahem. “Os tesouros dessa mostra nos convidam a repensar dicotomias tradicionais como antigüidade e modernidade, ciência e religião, racionalidade e irracionalidade.”

Quase ao mesmo tempo, leio num jornal velho:

O tempo em suspenso: Gagnebin analisa a idéia de história e narração em Benjamin. Walter Benjamin é certamente um dos pensadores mais enigmáticos de nosso século. Sua escrita densa e hermética não auxiliou a recepção de sua obra, mesmo entre os seus mais próximos – parece que não é outra a razão da recusa de sua tese sobre o drama barroco pelo mestre Hans Cornelius, ou da perplexidade muda de Horkheimer diante do mesmo texto. Mesmo quando “compreendida”, por seus amigos, ela o será segundo esquemas tão diferentes quanto os da teologia judaica e do materialismo histórico. Erros simétricos de leitura de uma obra coerente ou sintomas de uma dificuldade interna, de uma fratura do pensamento? Falando dos traços “esquizóides” de Walter Benjamin, Adorno parece inclinar-se para a segunda possibilidade. E, ainda hoje em dia, a formidável proliferação dos estudos benjaminianos parece não ter resolvido por completo essa dificuldade. Por exemplo, ainda existe tensão entre aqueles que acham justificadas as restrições de Adorno aos textos sobre Paris (a negligência da “superestrutura” ou da “mediação global”) e aqueles que, como Maurice de Gandillac, acham que Adorno era incapaz de captar a “significação essencial” do texto. Sem dizer, com isto, que M. de Gandillac se limita a uma compreensão “teológica” de Benjamin. O grande mérito de “História e Narração em Walter Benjamin”, de Jeanne Marie Gagnebin (que a Perspectiva está lançando este mês) consiste justamente em arrancar a leitura de Benjamin dessa inquietante alternativa. Não se trata de fazer a leitura trilhar alguma via média e pacífica nem de anular os termos em tensão. Aqui, a leitura de Benjamin é acompanhada por uma reflexão crítica sobre esta polêmica encarnada na vasta bibliografia (até a mais recente) que a exprime. Só isto já seria precioso para o leitor brasileiro, não-familiarizado com a literatura crítica alemã ou francesa atual. Mas, é claro, mais importante do que a atualização que permite é a dupla tarefa realizada por J.M.Gagnebin: mostrar a originalidade de Walter Benjamin no “álbum de família” dos “amigos materialistas da dialética” e, sobretudo, desnudar o nervo mais secreto dessa originalidade (através do exame de uso das noções de narração e de história) numa filosofia da linguagem e da temporalidade. No mínimo, digamos, tarefa complicada. Mas, justamente, é nesse limite da maior dificuldade que parece sobressaltar a proeza da autora – é só no elemento da filosofia que podemos reconstituir, caco a caco, a unidade do vaso original ou a unidade (sempre em crise) da obra de Walter Benjamin. O livro comporta quatro capítulos, consagrados sucessivamente aos temas da origem, da alegoria, do fim da narração, da narração de si mesmo, para desembocar numa conclusão onde todos os fios analíticos convergem na idéia de cesura, como essencial à compreensão da história presente. É claro que o espaço de uma resenha é estreito demais para que possamos dar idéia da riqueza deste itinerário hermenêutico. Mas é possível, ao menos, sugerir de maneira esquemática a eficácia de seu desempenho. Digamos que cada capítulo, consagrado o tema diverso, mantém a mesma estrutura – e que essa estrutura mimetiza a estrutura mesma da escrita e do pensamento de Walter Benjamin. Arrisquemos uma fórmula (já antecipando nosso alvo): a estrutura de uma dialética por assim dizer paralisada na tensão irresolúvel entre o irremediável e a esperança. Dialética anti-hegeliana, à maneira de Kierkegaard e dos “existencialistas” em geral? Talvez, mas o próprio Adorno, mais hegeliano que seu amigo (embora menos que Lukács), já invertia a proposição hegeliana “Só o Todo é a Verdade”, traduzindo-se por “O Todo é o Não-Verdadeiro”. E, de outro lado, parece que Benjamin não conseguiu se entusiasmar pelo bom Chestov. Trata-se, portanto, de descrever uma figura muito particular da dialética. Tarefa que J.M.Gagnebin enceta desfazendo equívocos quanto ao uso benjaminiano da idéia de origem. Ao contrário do que alguns pensam, o elogio da origem não significa necessariamente o império da nostalgia ou a busca do paraíso perdido ou, ainda, a saudade do comunismo primitivo. A origem explode no presente ou salta sobre ele, vinda do futuro. A linguagem adâmica, a ser reconquistada contra Babel, jamais foi um fato – seria talvez um possível, para o trabalho do pensador, do poeta ou do revolucionário. Subversão da linha temporal que é cúmplice das subversões lingüística e política (Benjamin é inimigo da concepção do tempo como “meio homogêneo e vazio” e espera que os revolucionários, atirando nas torres municipais, parem “o tempo dos relógios” e do trabalho – como Jeanne Marie não tem a simpatia que os frankfurtianos nutriam por Bérgson, não se demora nessas alusões). A mesma subversão da linha temporal (agora na forma da relação vertical entre o eterno e o efêmero), é descrita na fenomenologia do drama barroco que culmina (simplificando brutalmente) nas análises de Baudelaire e do advento da modernidade. Aqui, e contra a tradição clássico-romântica alemã, o drama é mobilizado contra a tragédia, a alegoria contra o símbolo e a história contra o mito. Não é nostálgica ou elegíaca, também, a análise do fim do Narrador ou da Narração. Leitor, é claro de Tönnies, Benjamin não lamenta o fim da sociedade tradicional. Com Kafka, digamos, emerge uma forma de “não mais contar” que é de algum modo mais “verdadeira” do que a narrativa tradicional e que se ancora naquele ponto do presente em que ele se abre para o futuro. Decididamente, Benjamin estava muito longe de Lukács. Também não é nostálgica a rememoração da infância. O contraponto é certamente Proust – mas a “busca do tempo perdido” ou da infância berlinense não pode culminar num resgate do passado que nos leve para além do tempo. Com Proust, mas contra Proust, a narrativa que o sujeito faz de si mesmo ou de sua infância não aspira a nenhum fechamento definitivo, muito menos na forma fetiche da obra de arte. O sujeito de alguma maneira se fratura abrindo uma brecha por onde pode emergir o Outro: – o Messias, a Revolução. Em todos os casos a linguagem e o tempo, por essência, não podem completar-se como uma bela totalidade. Não há expressão sem aquilo que não é exprimível, e não há temporalidade sem suspensão (no instante fulgurante e descontínuo) do tempo. Retornamos, assim, a nosso início: J.M.Gagnebin não busca uma via média entre materialismo e teologia. Tampouco nega oposição entre esses pólos. Pelo contrário, mostra como a oposição, ela mesma, é o centro e o eixo do pensamento de Benjamin. Sem essa “contradição”, tudo desmontaria. Contradição, talvez, menos no sentido heraclitiano da tensão máxima a ser imposta entre o arco e a lira. E, se assim é, o livro de Jeanne Marie Gagnebin parece atender a intenção mais profunda do filósofo. Lembro aqui uma carta de 6 de agosto de 1939, onde, defendendo sua leitura de Baudelaire contra Adorno, Benjamin afirma que seu texto é ilegível para quem não tem olhos de ver o ponto de fuga para o qual convergem as linhas aparentemente divergentes de seu pensamento. Ponto de fuga que é o objeto próprio do livro em tela.

E essa perspectiva também a faço minha, ao sabor de minúsculas granulas de fatuidade, como se encontrasse nódulos em minha própria carne, nódulos novos, brotoejas e uma profusão de carniça.

Nesse momento, saboreio um frappé de chocolate e sinto um gosto antigo, de minha juventude, impregnado de um passado que toda a minha memória havia erradicado, mas a rugosidade da espuma, o colorido da substancia, tudo, tudo me leva de volta, lá para os anos de minha juventude, na padaria do seu Rominha, depois do catecismo, que aqui pode e deve ter significados ambíguos.


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