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Walter Benjamin e Sigmund Freud: a psicanálise do despertar. de Claudia Maria Perrone

Parece lícito iniciar um texto sobre psicanálise tomando como objeto de reflexão um detalhe. O estatuto do detalhe é exatamente a obstinada incongruência de uma ” pequena coisa” que não conseguimos integrar em nossos exíguos arquivos.

A psicanálise é responsável por um dos sentidos modernos da palavra detalhe: ele é a subversão da soberania da consciência. Conhecemos a abertura do texto freudiano sobre Moisés, uma verdadeira revolução epistemológica, ao afirmar que a psicanálise costuma deduzir de traços a que se dá pouca importância, ou inobservados, do resíduo da observação, coisas secretas ou encobertas.

Há um pequeno detalhe nos comentadores de Walter Benjamin, uma discussão desprezada a notas de rodapé que merece ser recuperada: a leitura benjaminiana de Sigmund Freud. Susan Bock-Morss, em uma nota no seu livro sobre as passagens parisienses, sustenta que não se pode provar uma filiação direta entre Freud e Benjamin.

Morss enfatiza que a recepção benjaminiana do pensamento freudiano, nos anos 30, foi altamente mediatizada e, portanto, contêm alto grau de impureza destilada por correntes heterodoxas como o Surrealismo e a Escola de Frankfurt. O seu primeiro contato documentado com a psicanálise ocorreu durante o tempo de estudante. Gershom Scholem conta que em Berna, no ano de 1918:

Benjamin assistiu um seminário de Hölberlin sobre Freud e elaborou uma exposição minuciosa sobre sua teoria da pulsão, chegando a um juízo negativo. A propósito deste seminário, ele leu, entre outras As memórias de um doente dos nervos, de Schreber, que lhe agradou mais do que o ensaio de Freud sobre esse respeito. (1989, p. 66)

Morss salienta , ainda, outra passagem do livro de Scholem:

Não me lembro de que ele tenha algum dia contradito meu profundo desapontamento com a Interpretação dos sonhos, de Freud, que expressei numa carta que escrevi alguns anos mais tarde. (1989, p. 70)

Buck-Morss retoma a polêmica entre Benjamin e Theodor Adorno para sustentar o seu ponto de vista sobre esse assunto. Ao redor dos anos 30, Adorno demonstra preocupação com o rumo das investigações de Benjamin, pois sente uma aproximação com as idéias de C.G.Jung. Depois da reprimendas adornianas, Benjamin decidiu estudar seriamente Freud para contrastar com o pensamento de Jung e deixar claramente expostas as diferenças entre os dois autores. Surpreendentemente, ao invés de seguir esse projeto, Benjamin utiliza suas notas da leitura freudiana como base para o seu segundo ensaio sobre Kafka. Morss afirma que, mesmo sob pressão de Adorno, Benjamin nem sequer se interessou pelos trabalhos principais de Freud, senão pelas “similitudes” entre sua própria teoria da linguagem e o ensaio freudiano chamado Telepatia e psicanálise, publicado em 1935.

Momme Brodesen (1996), na sua biografia sobre Benjamin, acrescenta um elemento importante nessa discussão. Ainda que Benjamin afirmasse nas suas notas (1996, p. 101) que não ficou impressionado por nenhum dos seminários desse período na Universidade de Berna, eles deixaram marcas no seu desenvolvimento intelectual. Foram exatamente os seminários sobre Freud que lhe deram ímpeto para refletir sobre os problemas da percepção, tema maior dos escritos finais, sobretudo o projeto das passagens parisienses.

Benjamin, em meio a sua leitura dispersa da obra freudiana, interroga Adoro: há uma leitura de Freud ou de seus discípulos sobre a psicanálise do despertar ? Essa pergunta benjaminiana remete a outra : há um lugar para essa interrogação no campo da psicanálise?

A partir do Traumdeutung (1900), a metáfora do despertar exige uma decifração para mais além do biológico. E Benjamin faz esse exercício. O despertar está diretamente relacionado com o que ele denominou de imagem dialética. Uma definição, entre outras, que Benjamin estabelece da imagem dialética é que ela une o já ocorrido, num relampejar, com o agora. Ela não instaura uma relação temporal entre o passado e o presente, mas uma relação dialética que salta ” do que foi” ao agora. Ela exprime entre o já ocorrido e o agora uma correspondência histórica que não tem como objetivo descrever o passado, mas traduzi-lo. A imagem dialética é um momento do passado arrancado do fluxo histórico que adquire sua legibilidade no presente.

A dialética do sonho e do despertar está remete à imagem dialética. A imagem dialética é a imagem do sonho (Traumbild), que irrompe na continuidade histórica, levando-a à paralisação. É a imagem em que o novo se interpenetra com o velho e retém a continuidade da história. A função desses elementos do sonho é o despertar histórico. Tornar consciente um ” saber ainda não consciente” do que foi. O despertar é uma construção teórica mimética, no âmbito da linguagem, do truque fisiológico do sono e do sonhar. No momento do despertar as imagens do sonho, de um saber ainda não consciente mesclam-se à consciência desperta gerando um saber consciente do espaço desperto. O despertar segue o modelo da lembrança (Errinnerung): traz à tona o esquecido.

O sonho e o despertar são tomados como modelo do procedimento dialético de trazer ao estado de vigília as imagens daquilo que vivenciamos diariamente e não tomamos consciência. A distinção entre a imagem do sonho e do despertar faz-se pela leitura dessa imagem. É preciso estabelecer uma correspondência imediata entre a imagem do sonho e o agora desperto.

O índice histórico das imagens pertence a uma época determinada. Essa leitura coincide com o momento do despertar. Ele deveria ser a síntese da tese da consciência onírica e da antítese da consciência desperta, ele seria o ” agora da cognoscibilidade” em que as coisas assumem a sua verdadeira face. A compreensão da história e do seu processo arbitrário e ideológico ocorre no momento da interrupção do fluxo temporal.

A elaboração da noção do despertar busca render justiça as implicações políticas e teóricas que se entrecruzam na psicanálise. O projeto das passagens foi descrito com perfeição por George Steiner:

Benjamin pretende abrir as ” arcadas” entre a psicologia de massa, tingida de elementos freudianos, uma sociologia materialista , a estética e uma escatologia altamente pessoal (…). As ” Passagens” serão uma análise onírica do grande sono em que o capitalismo mergulhou na consciência coletiva. O mundo de sonhos assim engendrado é cheio de objetos e de promessas libidinosas fetichizadas (consumo excessivo e publicidade). (2001, p.7)

Uma das páginas mais reveladoras da Passagen Werk em relação a psicanálise é quando Benjamin afirma:

Se a partir dos conteúdos da consciência negados podem nascer, como afirma Freud dos conteúdos sexuais da consciência individual, uma obra literária, um produto da imaginação, nós com essa descrição poderíamos falar das passagens como a sublimação como a sublimação de um brique com mercadorias transbordando das vitrines (1993, p. 669)

Benjamin tentará transpor o modelo pulsional freudiano dos fenômenos individuais para os fenômenos coletivos. A força da produção coletiva aparece como pulsão e a sua organização em relações de produção determinadas das formas de vida social são formas de competência da superestrutura. Os fenômenos da cultura ou da superestrutura podem ser interpretados, por Benjamin, enquanto expressão (Ausdruck)2 da infra-estrutura:

A pergunta é: se a estrutura determina em certa medida a estrutura em seu material de pensamento e de experiência, mas esta determinação não é o simples reflexo, como caracterizá-la? Como sua expressão. A superestrutura é expressão da estrutura. As condições econômicas sob as quais existe a sociedade são expressas na superestrutura; tal como aquele que sonha com a barriga cheia encontra no conteúdo do sonho, senão uma condição causal, não seu reflexo, senão sua expressão. O coletivo expressa suas condições de vida. Estas encontram sua expressão no sonho, e no despertar sua interpretação. (1993, p. 495)

Benjamin segue a lógica surrealista e faz nascer uma imagem não da comparação, mas da aproximação de duas realidades distanciadas – a expressão psíquica no sonho e a expressão das forças produtivas coletivas – em uma re-invenção inusitada para criar uma nova figuração.

Andre Breton vê o homem como um “”sonhador definitivo” , o que engloba não somente o campo do onírico, mas também as visões da utopia e do jogo da imaginação, a rêverie. O autor do manifesto do surrealismo não desiste de tentar circunscrever os conceitos e estabelecer uma distinção clara entre o mundo do sonho e o estado de vigília. Para Benjamin, ao contrário, o onírico não pode ser reduzido ao espetáculo noturno. Ele deseja pensar os espaços intermediários – as passagens – entre o estado onírico e a vigília. Benjamin introduz outra imagem, a do sonho/arquitetura. A figura das passagens parisienses reside na ” estrutura onírica” (Traumstruktur). As galerias de mercadorias do século XIX versam sobre o interior e funcionam como um sonho coletivo, um espaço no qual as representações não se apenas se depositam mas também se acumulam.

Em outra imagem surpreendente , Benjamin assemelha o seu trabalho a uma oniromancia inversa, pois o seu método não se aplica ao ” escrito” mas aquilo que ” jamais foi escrito”. Se para o intérprete freudiano dos sonhos a análise inicia com um universo de determinações, de objetos, de fragmentos para desnaturar esses elementos da vida cotidiana, na hermenêutica benjaminiana há a busca do gratuito, do ornamental, dos fenômenos fragmentários que habitam a zona intermediária no qual o estético e o social não podem mais ser distintos. A confrontação incessante entre o mundo exterior, entre a representação e a percepção alienada permite a Benjamin aplicar o seu método de suspensão (Unterbrechung) instantânea. No momento do choque do despertar, com o pensamento em suspensão, cristaliza-se o novo, o corpo estrangeiro em uma imagem carregada de tensão, a imagem dialética.

O objetivo de Benjamin não é representar o sonho, mas dissipá-lo: as imagens dialéticas são imagens oníricas em estado de vigília e o despertar é o momento do conhecimento histórico. O sonho tem uma função de suporte metodológico para pensar os fenômenos culturais. Ele á a chave para os segredos e mistérios da vida desperta. Em certo sentido, os sonhos tornam-se depositários da visões utópicas da realidade cuja realização foi proibida na vida desperta, eles servem como refúgio para os desejos e aspirações negadas da humanidade na vida da vigília. Os sonhos reorganizam as imagens da vida desperta de modo estranho e não familiar sugerindo afinidades através das imagens dialéticas. O sonho representa o possível, o não-idêntico e contesta o ser-em-si-mesmo do princípio da realidade.

Para exprimir a utilização social das forças coletivas e a constituição dos espaços simbólicos coletivos, locus onde se entrecruzam a esfera da experiência coletiva e a experiência individual, Benjamin outra imagem para transpor a aquisição freudiana para esfera da experiência histórica:

Tarefa da infância: integrar o mundo novo no espaço simbólico. A criança pode fazer o que o adulto é totalmente incapaz de fazer, reconhecer o novo. (…) Qualquer criança descobre suas novas imagens para incorporá-las ao tesouro de imagens da humanidade. (1993, p. 493)

As crianças instalam a perspectiva das coisas aparentemente sem valor e sem intencionalidade. Em outra passagem , Benjamin retoma o olhar infantil como método:

Ao usar estas coisas não imitam tanto as obras dos adultos, senão juntam, nos artefatos produzidos, nos jogos, nos materiais de diferentes tipos, uma nova relação intuitivo. (1993, p. 994)

O olhar infantil permite uma aproximação cognitiva dos fenômenos descartados, inexpressivos do século XIX. Retomando a idéia freudiana da infância como um estágio de desenvolvimento superado de tal forma que para o adulto ele aparece como praticamente inexplicável, Benjamin busca na consciência infantil o elemento enterrado na educação burguesa e crucial para redimir , sob nova forma, a conexão entre a percepção e a ação que distingue a consciência do novo no adulto. Essa conexão não é causal mas uma forma ativa, criativa de mímesis e envolve a habilidade para estabelecer correspondências correspondências por meio de uma fantasia espontânea. Nesse sentido, Benjamin afirma que (…) todo gesto infantil é um impulso criativo que corresponde exatamente a um impulso receptivo (1993, p.766).

A natureza primordial das reações motoras constitui uma razão para realizar um exame atento. Como evidência da ” faculdade mimética”, Benjamin sustenta que a linguagem gestual é fundante da cognição, mais do que a linguagem conceitual. Ao observar os gestos infantis ao pintar , dançar e, especialmente no teatro, ele observava como essas atividades permitiam uma irrefreável descarga da fantasia infantil (1993,p. 768). A cognição infantil está investida de poder tátil, ligada a ação e, mais do que aceitar o sentido dado das coisas, as crianças conhecem os objetos isolando-os da maneira criativa, extraindo novas possibilidades de significação.

A socialização burguesa suprimiu as pistas visuais valorizando a resposta “correta” , olhando sem tocar, resolvendo problemas ” com a cabeça” , sentados passivamente com um comportamento a contrapelo das inclinações infantis e o triunfo dessa forma de cognição nos adultos marca, ao mesmo tempo, sua derrota como sujeitos revolucionários.

O elogio benjaminiano da cognição não implica, no entanto, uma visão romântica da inocência infantil. Pelo contrário, Benjamin afirmava que a criança vive em seu mundo como um ditador. Mas elas guardam a faculdade mimética, deteriorada ontologicamente. Em Sobre a faculdade mimética, escrito em 1933, Benjamin refere-se diretamente a esse ponto:

A natureza produz semelhanças. Basta pensar no mimetismo (por exemplo, os insetos com as folhas). Mas o maior talento para produzir semelhanças pertence aos humanos. O dom para ver similitudes é somente um rudimento daquele poderoso impulso prévio de fazer-se semelhante, de atuar mimeticamente. Talvez não exista nenhuma função humana superior que não está decisivamente determinada, ao menos em parte, pela capacidade mimética (1994, p. 108).

O aparato cognitivo anterior das correspondências e analogias, diz Benjamin, estava claramente baseado nesta destreza. A linguagem humana como prática através do qual o elemento expressivo dos objetos assume a forma de palavra era também mágico e mimético na sua origem. Benjamin supõe que a astrologia, como antiga ciência de ” ler” semelhanças entre o cosmos e os seres humanos no momento do seu nascimento, assinalou uma virada em direção aos poderes miméticos para as ” semelhanças não sensoriais” . Estas foram também a fonte da escrita. Benjamin sugere que a expressão mimética não se limita a linguagem verbal, como demonstram as novas tecnologias da fotografia e do cinema. A tecnologia dota os seres humanos de uma agudeza perceptual sem precedentes. Benjamin acreditava que o no novo tempo surgiria uma capacidade mimética menos mágica e mais científica. Em seu ensaio sobre a obra de arte observou como uma câmara detêm o fluxo da percepção e é capaz de capturar os gestos físicos mais sutis:

Através dela experimentamos pela primeira vez um inconsciente ótico, como na psicanálise experimentamos pela primeira vez o inconsciente instintivo. (1983, p. 23)

O cinema proporciona novo entendimento dos nossos poderes miméticos. Nas amplificações, o espaço se expande; na câmara lenta o movimento é decomposto revelando formações estruturais da matéria completamente novas. Pela primeira vez é possível uma análise desse espaço entretecido inconscientemente. A câmara penetra operativamente no material, submetendo o movimento a uma série de provas óticas.

As crianças imitam instintivamente os objetos como forma de exercer controle sobre o mundo da experiência. A teoria psicanalítica diz que o sintoma neurótico imita um fato traumático com o intento (falho) de defesa psíquica. Benjamin sugere que as novas técnicas miméticas podem instruir a coletividade no emprego efetivo dessa capacidade, não somente como defesa ante o trauma da industrialização, mas como meio para reconstruir a capacidade da experiência desarticulada nesse processo.

Recriar mimeticamente a nova realidade não é submeter-se as suas formas dadas, senão antecipar a reapropriação humana de seu poder. E no aspecto político é a tentativa de restabelecer a conexão entre a imaginação e o tecido nervoso, desgarrada pela cultura burguesa. Benjamin está a procura de uma recepção cognitiva ligada à ação e não apenas contemplativa, daí sua insistência ao afirmar que a ação humana é irmã do sonho.

A tarefa biológica do despertar da infância se transforma em uma alegorização para o despertar social coletivo, como um momento de convergência entre a experiência coletiva e a generacional. A tomada de consciência de uma geração é um acontecimento carregado de força política e historicamente único. O instante histórico do despertar coletivo deveria proporcionar uma resposta política e sócio-histórica para a ingênua pergunta infantil: de onde venho ?

Benjamin escreve:

Aquilo que a criança (e o adulto na sua difusa memória) encontra nas velhas pregas do vestido em que se apoiava no regaço de sua mãe, isso deveria estar contido nessas páginas. (1993, p. 494)

Até o mais fundamental ur-desejo pela mãe está mediado por um material historicamente transitório e está presente como recordação na memória. Benjamin remete a Kafka para descrever essa experiência:

Algo de nossa pobre, breve infância está na sua canção, algo da felicidade perdida, que nunca irá redescobrir-se, mas também algo de nossa vida cotidiana presente, com suas pequenas, inexplicáveis e sem dúvida existente, indescritível alegria. (1998, p. 51)

Na era pré-moderna, o significado simbólico se transferia de maneira consciente através da narração da tradição e servia de guia para a saída da nova geração do estado onírico infantil. Dada a moderna ruptura com a tradição, isso já não é mais possível.

Enquanto (…) a educação tradicional religiosa das gerações anteriores oferecia uma interpretação desses sonhos, o processo atual de socialização se traduz simplesmente em distrair as crianças. Proust podia ser um fenômeno somente para uma geração que havia perdido já todas as referências corporais, naturais para recordar, e mais pobre do que antes, estava abandonada a seus próprios recursos, e portanto podia sair do mundo infantil somente de maneira isolada, dispersa e patológica. (1993, p. 490)

As passagens são um “efeito arquitetônico antiquado” hoje e a mesma lógica pode ser estendida ao efeito antiquado do pai sobre o filho no mundo em que os objetos mudam de rosto drasticamente no curso de uma geração. Os pais já não podem aconselhar os filhos que ficam entregues aos seus próprios recursos. Esses recursos permanecem isolados até serem organizados coletivamente.

A ruptura com a tradição é irrevogável. Longe de lamentar essa situação, Benjamin percebeu o impulso revolucionário da modernidade. A forma tradicional de liberar a nova geração do seu mundo onírico infantil é a forma de perpetuar o status quo. A ruptura com a tradição libera os poderes simbólicos das ataduras conservadoras para a transformação social, isto é, para a ruptura com as condições de dominação que sustentam a tradição. Daí a advertência benjaminiana: Devemos despertar do mundo dos nossos pais. (1993, p. 620)

Benjamin segue a investigação centrado na idéia de estabelecer passagens entre o pensamento de Freud e Karl Marx, orientado pela seguinte frase marxiana: A reforma da consciência consiste somente em sacudir o mundo… fora do sonho de si mesmo. (1993, p. 570).

Benjamin fará um esforço para considerar o fetichismo da mercadoria a partir das suas ressonâncias na imaginação e no pensamento, tomando a psicanálise como um vértice importante para pensar essas questões. A probletização benjaminiana orienta-se não somente pela origem econômica do fetichismo, questão exaustivamente estudada por Marx, mas pela reação dos homens a esse fenômeno. A palavra chave, a partir dessa articulação, é fantasmagoria. O termo originou-se na Inglaterra em 1802, designando uma exibição de ilusões óticas produzidas por lanternas mágicas. A fantasmagoria é uma aparência de realidade que engana os sentidos através de manipulação técnica. O desenvolvimento da tecnologia, como assinala Benjamin, multiplicou o potencial dos efeitos fantasmagóricos.

Passagen Werk foi uma tentativa de revelar, através de um Traumdeutung monumental, o potencial de transformação e utopia adormecido nas manifestações da vida cultural do século XIX. Para Benjamin, o fracasso do século XIX, e também do século XX, está ligado ao fato de não saber reagir as inovações tecnológicas com uma nova ordem social. As expressões culturais desta sociedade projetaram um futuro utópico, embora sob a forma distorcida de um sonho. No projeto das passagens, auxiliado pela obra de Freud, ele buscou captar o núcleo racional das imagens-desejo e estados de sonho utópicos. O sentido da retomada da investigação benjaminiana, para a psicanálise e para teoria social, é o de buscar passagens para pensar a mudança social sem ser conduzido ao descaminho.

Notas:


1 – O presente artigo é parte de uma pesquisa desenvolvida com bolsa de RD do CNPq junto ao Pós-Graduação em Psicologia Social e Institucional do Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
2 – Ausdruck denota, em alemão, algo que está comprimido (gedrück), latente, e encontra saída (Ausgagng), por onde rapidamente passa, ocasionando pequena explosão.

Referências Bibliográficas
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___.Paris. Capitale du XIX siècle. Le livre des passages. Paris: CERF, 1993.
BRODESEN, Momme. Walter Benjamin. London: Verso, 1996.
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GAGNEBIN, J-M. História e narração em Walter Benjamin. São Paulo: Perspectiva, 1994.
KAFKA, Franz. Josefina ou O povo de camundongos. In: Um artista da fome/A construção. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
KLEINER, Bárbara. L´éveil comme catégorie centrale de l´expérience historique dans le Passagen Werk de Benjamin. In: WISMANN, H. Walter Benjamin et Paris. Paris: CERF, 1986.
SCHOLEM, G. Walter Benjamin: The Story of a Friendship. London: Faber and Faber, 1982. (Tradução em português: Walter Benjamin: a história de uma amizade. São Paulo: Perspectiva, 1989).
STEINER, G. A viagem crepuscular de Walter Benjamin. Folha de S. Paulo, São Paulo, 04 fev. 2001.Caderno Mais, p. 5-10.


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