By ahagon

“Os Tempos são mais interessantes que os homens”

Honoré de Balzac, Critique Litéraire, Introdução de Louis Lumet, Paris, 1912, p. 103 [Guy de la Ponneraye, Histoire de l’Amiral Coligny]

“A reforma da consciência consiste apenas em despertar o mundo… do sonho de si mesmo.”

Karl Marx, Der historische Materialismus: Die Frühschriften, Leipzig, 1932, Vol. I, p. 226 (Carta de Marx a Ruge, Kreuzenach, setembro de 1843.)

Nos domínios de que tratamos aqui, o conhecimento existe apenas em lampejos. O texto é o trovão que segue ressoando por muito tempo. [N 1, 1]

Comparação das tentativas dos outros com empreendimentos da navegação, nos quais os navios são desviados do Pólo Norte magnético. Encontrar esse Pólo Norte. O que são desvio para os outros, são para mim os dados que determinam minha rota. – Construo meus cálculos sobre os diferenciais de tempo – que, para outros, perturbam as “grandes linhas” da pesquisa. [N 1, 2]

Dizer algo sobre o próprio método da composição: como tudo o que estamos pensando durante um trabalho no qual estamos imersos deve ser-lhe incorporado a qualquer preço. Seja pelo fato de que sua intensidade aí se manifesta, seja porque os pensamentos de antemão carregam consigo um télos em relação a esse trabalho. É o caso tambem deste projeto, que deve caracterizar e preservar os intervalos da reflexão, os espaços entre as partes mais essenciais deste trabalho, voltadas com máxima intensidade para fora. [N1, 3]

Tornar cultiváveis regiões onde até agora viceja apenas a loucura. Avançar com o machado afiado da razão, sem olhar nem para a direita nem para a esquerda, para não sucumbir ao horror que acena das profundezas da selva. Todo o solo deve alguma vez ter sido revolvido pela razão, carpido do matagal do desvario e do mito. É o que deve ser realizado aqui para o solo do século XIX. [N 1, 4]

A redação deste texto que trata das passagens parisienses foi iniciada ao ar livre, sob um céu azul sem nuvens, arcado como uma abóboda sobre a folhagem e que, no entanto, foi coberto com o pó dos séculos por milhões de folhas, nos quais rumorejam a brisa fresca do labor, a respiração afegante do estudioso, o ímpedo do zelo juvenil e o leve e lento sopro da curiosidade. Pois o céu de verão pintados nas arcadas, que se debruça sobre a sala de leitura da Biblioteca Nacional de Paris, estendeu sobre ela seu manto opaco e sonhador. [N 1, 5]

O pathos deste trabalho: não há épocas de decadência. Tentativa de ver o século XIX de maneira tão positiva quanto procurei ver o século XVII no trabalho sobre o drama barroco. Nenhuma crença em épocas de decadência. Assim também (fora dos limites) qualquer cidade para mim é bela: e, por isso, não acho aceitável qualquer discurso sobre o valor maior ou menor das línguas. [N 1, 6]

E, depois, o lugar envidraçado diante do meu assento na Staatsbibliothek; círculo mágico intocado, terras virgens a ser pisada por figuras que evoco. [N 1, 7]

O lado pedagógico deste projeto: “Educar em nós o medium criador de imagens para um olhar estereoscópico e dimensional para a profundidade das sombras históricas.” São palavras de Rudolf Borchardt, Epilegomena zu Dante, vol. I, Berlim, 1923, pp.55-57. [N 1, 8]

Delimitação da tendência deste trabalho em relação a Aragon: enquanto Aragon persiste no domínio do sonho, deve ser encontrada aqui a constelação do despertar. Enquanto em Aragon permanece um elemento impressionista – a “mitologia” – e a esse impressionismo se devem muitos filosofemas vagos do livro (Le Paysan de Paris) – trata-se aqui da dissolução da “mitologia” no espaço da história. Isso, de fato, só pode acontecer através do despertar de um saber ainda não consciente do ocorrido. [N 1, 9]

Este trabalho deve desenvolver ao máximo a arte de citar sem usar aspas. Sua teoria está intimamente ligada à da montagem. [N 1, 10]

“À excessão de um certo charme sofisticado, os drapeados artísticos do século passado pegaram mofo.” <Sigfried> Giedion, Bauen in Frankreich, Leipzig-Berlim, 1928, p.3. Cremos, porém, que a atração que exercem sobre nós revelam que tembám conservam substâncias vitais para nós – não tanto para nossa arquitetura, como ocorrem com as antecipações construtivas das estruturas de ferro, mas para o nosso conhecimento, ou se preferirmos, para a radioscopia da situação da classe burgusa no momento em que elas surgem os primeiros sinais de decadência. Em todo o caso, matérias de vital importância no plano político – como o demonstram tanto a fixação dos surrealistas por estas coisas quanto a exploração delas pela moda atual. ;em outras palavras: exatamente como Giedion nos ensina a extrair da arquitetura da época, em torno de 1850, os traços fundamentais da arquitetura de hoje, queremos reconhecer, nas formas aparentemente secundárias e perdidas daquela época, a vida de hoje, as formas de hoje. [N 1, 11]

“Nos degraus da Torre Eifel, varridos pelo vento, ou melhor ainda, nas pernas de aço de uma ponte transboudeur, confrontamo-nos com a experiência estética fundamental da arquitetura de hoje: através da fina rede de ferro estendida no ar, passa o fluxo das coisas – navios, mar, casas, mastro, paisagens, porto. Elas perdem suas formas delimitada: quando descemos, elas rodopiam umas nas outras, e simultaneamente se misturam.” Sigfried Giedion, Bauen in Frankreich, Leipzig-Berlim, p. 7. Assim também o historiador hoje tem que construir uma estrutura – filosofica – sutil, porém resistente, para poder capturar em sua rede os aspectos mais atuais do passado. No entanto, assim como as magnificas vistas das cidades oferecidas pelas novas construções de ferro – ver também as ilustrações 61-64 de Giedion – ficaram durante muito tempo reservadas exclusivamente aos operários e engenheiros, também o filosofo que deseja captar aqui suas primeiras visões deve ser um operário independente, livre de vertigens e, se necessário, solitário. [N 1a, 1]

Em analogia com o livro sobre o drama barroco, que iluminou o século XVII através do presente, deve ocorrer aqui o mesmo com o século XIX, porém de maneira mais nítida. [N 1a, 2]

Pequena proposta metodológica para a dialética da história cultural. É muito fácil estabelecer dicotomias para cada época, em seus diferentes “domínios”, segundos determinados pontos de vista: de modo a ter, de um lado, a parte “fértil”, “auspiciosa”, “viva” e “positiva”, e de outro, a parte inútil, atrasada e morta de cada época. Com efeito, os contornos da parte positiva só se realçarão nitidamente se ela for devidamente delimitada com relação à parte negativa. Toda negação, por sua vez, tem o seu valor apenas como pano de fundo para os contornos do vivo, do positivo. Por isso, é de importância decisiva aplicar novamente uma divisão a esta parte negativa, inicialmente excluída, de modo que a mudança de ângulo de visão (mas não de critérios!) faça surgir novamente, nela também, um elemento positivo e diferente daquele anteriormente especificado. E assim por diante ad infinitum, até que todo o passado seja recolhido no presente em uma apocatástase histórica. (Apocatastasis = a “adimissão de todas as almas no Paraíso”) [N 1a, 3]

O que foi dito anteriormente, em outros termos: a indestrutibilidade da vida suprema em todas as coisas. Contra os profetas da decadência. E, com efeito: não se trata uma afronta a Goethe filmar o Fausto, e não existe um mundo entre o Fausto enquanto obra literária e o filme? Sem dúvida. Entretanto, não existe também um mundo entre uma adaptação boa e uma adaptação ruim do Fausto para o cinema? O que interessa não são os “grandes” contrastes, e sim os contrastes dialéticos, que frequentemente se confundem com nuances. A partir deles, no entanto, recria-se sempre a vida de novo. [N 1a, 4]

Compreender juntos Breton e Le Corbusier – isso significaria estender o espírito da França atual como um arco, com o qual o conhecimento atinge o instante bem no coração. [N 1a, 5]

Marx expõe a relação causal entre economia e cultura. O que conta aqui é a relação expressiva. Não se trata de apresentar a gênese econômica da cultura, e sim a expressão da economia na cultura. Em outras palavras, trata-se da tentativa de apreender um processo econômico como fenômeno primevo perceptível, do qual se originam todas as manifestações de vida das passagens (e, igualmente, do século XIX). [N 1a, 6]]

Este estudo, que trata fundamentalmente do caráter expressivo dos primeiros produtos industriais, das primeiras construções industriais, das primeiras máquinas, mas também das primeiras lojas de departamentos, reclames e etc., torna-se com isso duplamente importante para o marxismo. Primeiramente, o estudo apontará de que maneira o contexto no qual surgiu a doutrina de Marx teve influência sobre ela através de seu caráter expresivo, portanto, não só através de relações causais. Em segundo lugar, deverá mostrar sob que aspectos também o marxismo compartilha o caráter expressivo dos produtos materias que lhe são contemporâneos. [N 1a, 7]

Método deste trabalho: montagem literária. Não tenho nada a dizer. Somente a mostrar. Não surrupiei coisas valiosas, nem me apropriei de formulações espirituosas. Porém, os farrapos, os resíduos: não quero inventariá-los, e sim fazer-lhes justiça da única maneira possível: utilizando-os. [N 1a, 8]

Ter sempre em mente que o comentário de uma realidade (pois trata-se aqui de um comentário, de uma interpretação de seus pormenores) exige um método totalmente diferente daquele requerido para um texto. No primeiro caso, a ciência fundamental é a teologia, no segundo, a filologia. [N 2, 1]

Pode-se considerar um dos objetivos metodológicos deste trabalho demosntrar um materialismo histórico que aniquilou em si a idéia de progresso. Precisamente aqui o materialismo histórico em todos os motivos para se diferenciar rigorosamente dos hábitos de pensamentos burgueses. Seu conceito fundamental não é o progresso, e sim a atualização. [N 2, 2]

A “compreensão” histórica deve ser fundamentalmente entendida como uma vida posterior do que é compreendido e, por isso, aquilo que foi reconhecido na análise da “vida posterior das obras”, de sua “fortuna crítica”, deve ser considerado com fundamento da história em geral [N 2, 3]

Como este trabalho foi escrito: degrau por degrau, à medida que o acaso oferecia um estreito ponto de apoio, e sempre como alguém que escala alturas perigosas e que em momento algum deve olhar em volta a fim de não sentir vertigem (mas também para reservar para o fim toda a magestade do panorama que se lhe oferecerá) [N 2, 4]

A supressão dos conceitos de “progresso” e de “época de decadência” são apenas dois lados de uma mesma coisa. [N 2,5]

Um problema central do materialismo histótico a ser finalmente considerado: será que a compreensão marxista da história tem que ser necessariamente adquirida ao preço da visibilidade [Anschaulichkeit] da história? Ou: de que maneira seria possível conciliar um incremento da visibilidade com a realização do método marxista? A primeira etapa desse caminho seria aplicar à história o principio da montagem. Isto é: erguer as grandes construções a partir de elementos minusculos, recortados com clareza e precisão. E, mesmo, descobrir na análise do pequeno momento individual o cristal do acontecimento total. Portanto, romper com o naturalismo historico vulgar. Apreender a construção da história como tal. Na estrutura do comentário – Resíduos da história. [N 2, 6]

Uma citação de Kierkegaard em Wiesengrund, com esta comentário: “‘Pode-se também chegar a uma mesma consideração do mítico quando se parte do elemento imagético. Quando, numa época de reflexão, numa representação reflexiva, vê-se o elemento imagético sobressair de maneira muito comedida e quase imperceptível, como um fóssil antidiluviano, lembrando uma outra forma de existência que apagou a dúvida, talvez fiquemos surpresos com o fato que o imagético tenha um dia tenha desempenhado um papel tão importante. ‘Esse ‘surpriender-se’ é refutado por Kierkegaard. No entanto, isso anuncia a mais profunda intuição entre dialética, mito e imagem. A dialética detém-se na imagem e cita, no acontecimento histórico mais recente, o mito como passado muito antigo: a natureza como história primeva. Por isso, as imagens, como as do intérieur, que conduzem a dialética e o mito a um ponto de indistinção, são verdadeiramente ‘fósseis antidiluvianos’. Podem ser denominadas, segundo uma expressão de Benjamin, imagens dialéticas cuja a concludente definição da alegoria vale também para a intenção alegórica de Kierkegaard como figura da dialética histórica e da natureza mítica. Segundo ela, ‘na alegoria, a facies hippocratica da história revela-se ao observador como paisagem primeva petrificada'”. Theodor Wisengrund-Adorno, Kierkegaard, Tübigen, 1933, p. 60. – Resíduos da história. [N 2, 7]

Somente um observador superficial podem negar que existem correspondências entre o mundo da tecnologia moderna e o mundo arcaico dos símbolos da mitologia. Num primeiro momento, de fato, a novidade tecnológica produz efeito somente enquanto novidade. Mas logo nas seguintes lembranças da infância transforma seus traços. Cada infância realiza algo grande e insubstituível para a humanidade. Cada infância, com seu interesse pelos fenômenos tecnológicos, sua curiosidade por toda a sorte de invenções e máquinas, liga as conquistas tecnológicas aos mundos simbólicos antigos. Não existe nada no domínio da natureza que seja por essência subtraído de tal ligação. Só que ela não se forma na aura da novidade, e sim naquela da hábito. Na recordação, na infância e no sonho. – Despertar – [N 2a, 1]

O momento histórico primevo no passado não é mais encoberto, como antes – isso também é uma consequência e uma condição da tecnologia -, pela tradição da igreja e da família. O antigo horror pré-histórico já envolve o mundo de nossos pais porque não estamos ligados a esse mundo pela tradição. Os universos de memória [Merkwelten] decompõem-se mais rapidamente, o elemento mítico neles contido vem à tona mais pronta e brutalmente, de maneira mais veloz deve ser erigido um universo de memória, totalemente diferente e contraposto ao anterior. Eis como o ritmo acelerado da tecnologia se apresenta como ponto de vista da história primeva atual. – Despertar -. [N 2a, 2]

Não é que o passado lança luz sobre o presente ou que o presente lança luz sobre o passado; mas a imagem é aquilo em que o ocorrido encontra o agora num lampejo, formando uma constelação. Em outras palavras: a imagem é a dialética na imobilidade. Pois, enquanto a relação do presente com o passado é puramente temporal e contínua, a relação com o ocorrido com o agora é dialética – não e uma progressão, e sim uma imagem, que salta – Somente as imagens dialéticas são imagens autênticas (isto é: não arcaicas), e o lugar onde as encontramos é a linguagem. – Despertar -. [N 2a, 3]

Ao estudar, em Georg Simmel, a apresentação do conceito de verdade em Goethe, ficou muito claro para mim que meu conceito de origem [Urprung] no livro sobre o drama barroco é uma transposição rigorosa e concludente deste conceito goethiano fundamental do domínio da natureza para aquele da história. Origem – eis o conceito de fenômeno originário transposto do contexto pagão da natureza para os conceitos judaicos da história. Agora, nas Passagens, empreendo também um estudo da origem. Na verdade persigo a origem das formas e das transformações das passagens parisienses desde seu surgimento até o seu ocaso, e a apreendo nos fatos econômicos. Esses fatos, do ponto de vista da causalidade – ou seja, como causas -, não seriam fenômenos originários; tornan-se tais apenas quando, em seu próprio desenvolvimento – um termo mais adequado seria desdobramento – fazem surgir a série das formas históricas concreta das passagens, assim como a folha, ao abrir-se, desvenda toda a riqueza do mundo empírico das plantas. [N 2a, 4]

“Estudando essa época tão próxima e tão longínqua, comparo-me a um cirurgião que opera com anestisia local: trabalho em regiões insensíveis, mortas, e o doente, entretanto, vive e ainda pode falar.” Paul Morand, 1900, Paris, 1931, pp. 6-7. [N 2a, 5]

O que distingua as imagens das “essências” da fenomenologia é seu índice histórico. (Heidegger procura em vão salvar a história para a fenomenologia, de maneira abstrata, através da “historicidade”.) Estas imagens devem ser absolutamente distintas das categorias das “ciências do espírito”, do assim chamado habitus, do estilo etc. O índice histórico das imagens diz, pois, não apenas que elas pertencem a uma determinada época, mas, sobretudo, que elas só se tornam legíveis numa determinada época. E atingir essa “legibilidade” constitui um determinado ponto crítico específico do movimento em seu interior. Todo o presente é determinado por aquelas imagens que lhes são sincrônicas: cada agora é o agora de uma determinada cognoscibilidade. Nele, a verdade está carregada de tempo até o ponto de explodir. (Esta explosão, e nada mais, é a morte do intentio, que coincide com o nascimento do tempo histórico autêntico, o tempo da verdade.) Não é que o passado lança sua luz sobre o presente ou que o presente lança sua luz sobre o passado; mas a imagem é aquilo em que o ocorrido encontra um agora num lampejo, formando uma constelação. Em outras palavras: a imagem é a dialética na imobilidade. Pois, enquanto a relação do presente com o passado é puramente temporal, a do ocorrido com o agora é dialética –  não de natureza temporal, mas imagética. Somente as imagens dialéticas são autênticamente históricas, isto é, imagens não-arcaicas. A imagem lida, quer dizer, a imagem no agora da cognoscibilidade, carrega no mais alto grau a marco do movimento crítico, perigoso, subjacente a toda leitura. [N 3, 1]

É importante afastar-se resolutamente do conceito de “verdade atemporal”. No entanto, a verdade não é – como afirma o marxismo – apenas uma função temporal do conhecer, mas é ligada a um núcleo temporal que se encontra simultaneamente no que é conhecido e naquele que conhece. Isso é tão verdadeiro que o eterno, de qualquer forma, é muito mais um drapeado em um vestido do que uma idéia. [N 3, 2]

Esboçar a história das Passagens conforme o seu desenvolvimento. Seu componente propriamente problemático: não renunciar a nada que possa demonstrar que a representação materialista da história é imagética [bildhaft] num sentido superior que que a representação tradiconal. [N 3, 3]

Formulação de Ernst Bloch sobre o trabalho das Passagens: ” A história mostra seu distintivo da Scotland-Yard.” Foi no contexto de uma conversa na qual eu explicava como este trabalho  – comparável ao método da fissão nuclear – libera as forças gigantescas da história que ficam presas bo “era uma vez” da narrativa histórica clássica. A historiografia que mostrou “como as coisas efetivamente aconteceram”, foi o narcótico mais poderoso do século. [N 3, 4]

“A verdade não nos escapará”, é o que se lê num dos epigramas [“Sinngedicht”] de Keller. Assim é formulado o conceito de verdade com o qual pretende-se romper nestas exposições. [N 3a, 1]

“História primeva do século XIX” – esta não teria interesse, se apenas significasse que as formas da história primeva deveriam ser encontradas nos repertórios do século XIX. Somente onde o século XIX fosse apresentado como forma originária da história primeva – isto é, como uma forma na qual toda a história primeva se agrupa de maneira nova em imagens que pertencem àquele século – o conceito de uma história primeva do século XIX teria sentido. [N 3a, 2]

Seria o despertar a síntese da tese da consciência onírica e da antítese da consciência desperta? Neste caso, o momento de despertar seria o momento idêntico ao “agora da cognoscibilidade”, no qual as coisas mostram seu rosto verdadeiro – o surrealista. Assim, em Proust, é importante a mobilização da vida inteira em seu ponto de ruptura, dialético ao extremo: o despertar. Proust inicia com uma apresentação do espaço daquele que desperta. [N 3a, 3]

“Se insisto nesse mecanismo de contradição na biografia de um escritor…é porque a seqüência de seu pensamento não pode negligenciar os fatos que têm uma lógica diferente daquela de seu pensamento tomado de forma isolada. É porque não há uma só idéia que ele sustente que perdure verdadeiramente…em face de fatos primordiais e muito simples: que há a polícia e os canhões diante dos trabalhadores, que há a ameaça de guerra e o fascismo que já reina…Faz  parte da dignidade de um homem submeter suas concepções a esses fatos, e não introduzir esses fatos, por um passe de mágica, em suas concepções, por mais engenhosas que sejam.”Aragon. “D’Alfred de Vugny à Avdeenko”, Commune, II, 20 abr. 1935, pp. 808-809. Porém, é possível que, em contradição com meu passado, eu estabeleça uma continuidade com o passado de um outro que ele, por sua vez, como comunista, contesta. Neste caso, com o passado de Aragon, que no mesmo ensaio renega Paysan de Paris: “E, como a maioria de meus amigos, eu amava tudo aquilo que é falho, que é monstruoso, o que não pode viver, o que não pode ter êxito… Eu era como eles, preferia o erro a seu contrário.” p.807. [N3a, 4]

 

<fase média>

 

Na imagem dialética, o ocorrido de uma determinada época é sempre, simultaneamente, o “ocorrido desde sempre”. Como tal, porém, revela-se somente a uma época bem determinada – a saber, aquela na qual a humanidade, esfregando os olhos, percebe como tal justamente essa imagem onírica. É nesse instante em que o historiador assume a tarefa da interpretação dos sonhos. [N 4, 1]

A expressão “o livro da natureza” indica que só pode ler o real como um texto. Assim será tratada aqui a realidade do século XIX. Nós abrimos o livro do que aconteceu. [N 4, 2]

Assim como Proust inicia a história de sua vida com o despertar, toda a apresentação da história deve também começar com o despertar; no fundo, ela não deve tratar de outra coisa. Essa exposição, portanto, ocupa-se em despertar com o século XIX. [N 4, 3]

A utilização dos elementos do sonho ao despertar é o cânone da dialética. Tal utilização é exemplar para o pensador e obrigatória para o historiador. [N 4, 4]

Raphael procura corrigir a concepção marxista do caráter normativo da arte grega: “Se o caráter normativo da arte grewga é…um fato histórico explicável…, devemos…determinar…quais foram as condições especiais que levaram a cada renascimento e, portanto, quais os fatores da…arte grega que esses renascimentos aceitaram como modelo. De fato, a arte grega em sua totalidade nunca possuiu um caráter normativo, os nenascimentos…têm sua propria história…Somente uma análise histórica pode indicar a época na qual nasceu a noção abstrata de uma ‘norma’…da Antiguidade…Esta só foi criada pela Renascença, isto é, pelo capitalismo primitivo e, em seguida, foi aceita pelo classicismo, que…começou a determinar seu lugar no encadeamento dos fatos históricos. Marx não avançou nessa via com plena medidade de possibilidades do materialismo histórico.” Max Raphael, Proudhon, Marx, Picasso, Paris, 1933, pp. 178-179. [N 4, 5]

 


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